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Redação Dissertativa


CÉLULAS NO CELULAR

Fonte: Folha.com, Marcelo Leite


O assunto hoje é tecnomedicina — no bom sentido. Alguém tem dúvida de que a tecnologia pode beneficiar e tem beneficiado a prática da medicina e a saúde dos pacientes?

Só ela não basta, por certo. Quem já esteve internado num hospital ou acompanhou um parente sabe o quanto eles ganhariam se cuidassem mais dos pacientes do que de médicos, enfermeiros e equipamentos. Mas é óbvio que a inovação está na raiz do avanço da medicina, sempre esteve.

Muitas coisas estão mudando — algumas para melhor — com a invasão da vida cotidiana pelo tsunami eletrônico, como nos dois casos que motivaram esta coluna: redes de dados e celulares. Por que a medicina ficaria de fora?

A disseminação dos bancos de dados criou ferramentas poderosas para analisar qualidade de serviços. As estatísticas acumuladas nos 20 anos do SUS (Sistema Unificado de Saúde), por exemplo, permitem gerenciar de modo mais eficiente a atenção básica. Pena que as gestões petistas e tucanas fiquem se bicando e desfigurando coisas úteis como a universalização do Cartão Nacional de Saúde.

Imagine se informações como essas fossem também usadas para oferecer ao público um ranking dos melhores hospitais, dos médicos mais habilidosos e dos serviços de cardiologia, ortopedia ou ginecologia com os maiores índices de sucesso.

Ao menos para os três quartos da população brasileira que não depende exclusivamente do SUS e tem alguma margem de escolha, seriam informações preciosas. Como já são inúmeros os casos de pacientes que se deslocam até centenas de quilômetros para se tratar, não custaria muito rodar um pouco mais para recorrer a um centro com melhor desempenho.

Tão cedo isso não vai acontecer no Brasil. Mas algo assim começou nos Estados Unidos e pode servir de exemplo. Quem viver verá.

A Sociedade de Cirurgiões Torácicos de lá, que reúne os médicos que operam doentes do coração, compila há anos de modo padronizado os resultados obtidos em 90% das cerca de 1.100 clínicas americanas que oferecem cirurgias como pontes de safena. As informações serviam para monitorar e aperfeiçoar a qualidade dos serviços. Agora, a sociedade de especialistas decidiu abrir parte importante desse acervo para o público leigo.

Tomei conhecimento da iniciativa num artigo do periódico "New England Journal of Medicine", um dos mais prestigiados. Assinado por Timothy G. Ferris e David F. Torchiana, o texto anuncia que a revista leiga "Consumer Reports" publicou um ranking de serviços de cirurgia cardíaca.

Cada clínica recebeu de uma a três estrelas, conforme a qualidade de seus serviços, como se fossem hotéis (aviso: para ver as estrelas, é preciso ser assinante da "Consumer Reports"). Só que, em lugar de fartura do café da manhã ou ar-condicionado e frigobar, os 11 itens analisados para criar a classificação incluem coisas como percentagem de pacientes submetidos a diálise depois de uma ponte de safena, ou que precisaram ser reoperados.

Há limitações, claro. Só 20% das clínicas aceitaram ter seus dados divulgados (supõe-se que as refratárias sofrerão pressão de ora em diante para que suspendam o sigilo). Os dados apresentados são oferecidos só por clínica, não para cada médico, nível de transparência ainda insuportável para uma profissão que não raro protege os interesses de seus integrantes melhor que os dos pacientes. Mas é um primeiro passo, que poderíamos começar a ensaiar por aqui.

O caso dos celulares é uma aplicação mais direta da tecnologia. O engenheiro elétrico Aydogan Ozcan, segundo li na revista "The Scientist", ganhou um prêmio de US$ 200 mil para continuar desenvolvendo sua invenção engenhosa: um microscópio sem lentes e barato para funcionar acoplado a telefones celulares com câmeras.

O dispositivo, batizado como Lucas, pesa pouco mais de 40 gramas e pode ser fabricado ao custo de dez dólares. Conta com um LED (diodo emissor de luz) e um receptor para amostras de água ou de sangue. As células que estiverem na amostras são iluminadas pelo LED e geram uma espécie de sombra holográfica, que pode ser analisada por um programa carregado no chip do celular para identificação do tipo de célula ou organismo.

A ideia é permitir diagnósticos rápidos ou analisar a qualidade da água em regiões remotas, sem hospitais ou laboratórios, mas com redes de celular. Por exemplo, na África, ou na Amazônia. O agente de saúde obtém informação instantânea e pode usar o telefone para se comunicar com um especialista.

O artigo técnico sobre o microscofone (na falta de nome melhor) saiu no periódico especializado "Lab on a Chip". Foi destacado como "joia oculta" por Jacqueline Upcroft, microbiologista do Instituto de Pesquisa Médica de Queensland, Austrália, na iniciativa Faculty of 1000 — outra boa ideia propiciada pela tecnologia informática, como até o mais luddita dos leitores poderá perceber.

Fim

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Redação dissertativa 222: Tema: celular.Tópicos: telefones celulares, diagnósticos rápidos, qualidade da água em regiões remotas, tecnomedicina.