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Redação Dissertativa


OS DESCONECTADOS

Fonte: Família Cristã, Pe. Alfredo J. Gonçalves


Em meio à revolução tecnológica de nossos tempos, na era da informática, quanto grande parte da população tem acesso à Internet, e maior parte ainda tem seu telefone celular, detectamos uma nova categoria de excluídos: os desconectados. A ansiedade para estabelecer conexões a qualquer custo tem como contrapartida a frustração quanto ao desconhecimento desse novo mundo virtual.

Nessa febre pelas novas tecnologias da informação simultânea não podemos desconhecer as armadilhas que estão em jogo. Uma delas é bem notória e familiar, está dentro de nossas casas. Os anseios por conexões a longa distância pode revelar lacunas inconscientes na dimensão dos afetos primordiais. A sociedade moderna ou pós-moderna, com destaque para o universo urbano, tende a romper os laços primários, de parentesco, de amizade, de carinho, etc. Em seu lugar, criam novos laços de caráter secundário ou virtual.

Facilmente encontramos pessoas que se conectam o tempo todo, via Internet ou via telefone, com pessoas à distância. Recebem e enviam "torpedos" de nomes não raro desconhecidos. Multiplicam-se as redes virtuais de amizade, como Orkut, só para citar um exemplo. Porém, essas mesmas pessoas costumam ter imensa dificuldade de convivência com quem se encontra a seu lado, mora debaixo do mesmo teto, é companheiro de trabalho ou de estudo.

No mundo urbano na "multidão solitária" (para usar a expressão de David Riesman), as pessoas se aglomeram, se tropeçam, disputam lugar nos meios de transporte, aplaudem e vaiam nos shows, enfrentam juntas filas no INSS, na padaria, no açougue e no cabeleireiro, torcem pelo mesmo time, vivem em apartamentos geminados - mas não se conhecem, não se cumprimentam, tendem a isolar-se. Um olhar ou um toque involuntário ou inadvertido é logo seguido de um rápido desvio ou pedido de desculpas. As pessoas se fecham atrás de um livro, de um jornal, de seus fones de ouvido ou de suas próprias carrancas.

As ruas movimentadas das cidades se convertem em desertos modernos ou pós-modernos. Multidão rima com solidão: não há melhor lugar para esconder-se do que essas correntes humanas das grandes metrópoles. Rodeado de gente por todos os lados, em meio a uma enorme massa agitada e em movimento, frequentemente a pessoa sente-se órfã, só e perdida. Pior é que quando foge desse rio agitado e entra em sua casa, depara-se muitas vezes com estranhos. Cada um pega seu prato e em silêncio senta-se em frente à "telinha". O lar facilmente se converte numa espécie de pensão de onde os "hóspedes" se servem para comer e dormir. A convivência e a comensalidade tendem a ser abolidas.

Essa sensação de estranhamento em meio à multidão fugidia e apressada, na medida em que aprofunda o vazio da alma, desperta a necessidade quase doentia de conexão. Conectar-se, seja com quem for, é uma forma de fugir à solidão e ao encontro consigo mesmo. Busca-se nesses contatos virtuais uma tábua de salvação para a carência profunda dos contatos reais. Compensa-se a falta de uma rede de amigos, parentes e conhecidos por uma rede web. A vantagem é que, enquanto a primeira interpela, questiona e desinstala, a net dispensa o "conectado" de compromissos mais sólidos, responsáveis e duradouros. Prevalecem as relações momentâneas, evanescentes, efêmeras, descartáveis.

Resulta que muitos conectados virtualmente não passam de desconectados de relações humanas profundas, onde se respira carinho, amor e amizade. Por outro lado, muitos conectados em termos de laços primordiais estão fora do acesso às novas conexões. Neste sentido, os conceitos de inclusão e exclusão se borram, bem como suas fronteiras. A inclusão virtual pode ser um passo ou um sintoma para uma exclusão do calor humano mais íntimo, e inversamente, a exclusão virtual, ao mesmo tempo que pode significar maior inclusão familiar ou comunitária, também desenvolver bloqueios reais às novas tecnologias da informação.

Mas há outra armadilha. A busca frenética e desesperada pelo acesso aos novos meios de conexão virtual pode nos levar a esquecer outros tipos de desconectados que se encontram a dois passos de nossa casa e de nossa rua. De fato, grande parte da população segue desconectada não só da rede de Internet ou da telefonia celular, e sim, mais basicamente, da rede de saúde pública, da rede de educação, da rede de transportes decentes; desconectada do sistema público de segurança, de saneamento básico, da informação livre e sem censura, desconectada inclusive da terra, do teto, ou até do vestuário decente e da alimentação com calorias suficientes.

Neste caso, se borram ainda mais os limites entre inclusão e exclusão. Talvez seja mais correto falar de "inclusão perversa" como faz José de Sousa Martins. Em síntese, os mais desconectados das novas tecnologias de informação simultânea e à distância costumam ser, perversamente, desconectados dos direitos mínimos a uma vida digna, justa e solidária. Uma desconexão acarreta a outra. O mais grave é que, com freqüência inusitada, o moralismo burguês costuma olhar com olhos enviesados quando os desconectados do trabalho, da moradia e dos direitos fundamentais procuram a todo custo conectar-se através do celular, da Internet e da televisão. Como se, vivendo na pobreza e na miséria, não pudessem desfrutar da tecnologia de ponta.

Isto para não falar de outros moralismos bem mais sórdidos, relativos, por exemplo, ao álcool, ás drogas e ao hábito da limpeza. Nessa visão moralista e distorcida, uma vez pobre, este deve saber e permanecer no seu lugar! Que história é essa de adquirir televisão, celular e computador quando sequer tem casa, roupa e comida para seus filhos! Numa palavra, os desconectados da vida devem igualmente permanecer desconectados do progresso. Dupla desconexão ou dupla "conexão perversa".

Fim

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Redação dissertativa 243: Tema: internet.Tópicos: desconectados da vida, acesso aos novos meios de conexão virtual, população desconectada da rede de internet.