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Redação Dissertativa


US$ 1 MILHÃO PARA GENES E AMBIENTE

Fonte: Folha.com, Marcelo Leite


Oito anos atrás, fiquei fascinado com um estudo de Terrie Moffitt e Avshalom Caspi publicado no periódico "Science". Dediquei-lhe uma reportagem na Folha: "DNA pode proteger crianças maltratadas".

Fico sabendo agora que o casal de neurocientistas do King's College de Londres e da Universidade Duke (EUA) recebeu um prêmio de US$ 1 milhão por seu trabalho pioneiro sobre a interação entre genes e ambiente. Sensacional.

Moffitt e Caspi mais do que merecem o Prêmio de Pesquisa Klaus J. Jacobs, conferido pela fundação suíça de mesmo nome. Afinal, eles deram uma contribuição crucial para começar a entender como as disposições naturais de uma pessoa --seus genes-- podem ser moduladas pela maneira como são criadas --o ambiente-- e conduzir a uma vida normal ou, quem sabe, a uma existência assolada por agressões e depressão.

A façanha é tanto mais admirável por se dar numa área, a do comportamento, em que a mofada doutrina do determinismo genético mais fez suposições e menos obteve resultados palpáveis. Durante anos buscaram-se os genes "da" esquizofrenia, "da" agressividade, até "do" homossexualismo. Até agora, esse programa deu com os burros n'água.

A razão para o fracasso está na complexidade, que as explicações científicas evitam como o diabo diante da cruz (mas à qual, vez por outra, são obrigadas a render-se). Parece óbvio que algumas pessoas têm predisposição natural para comportamentos patológicos e que essa predisposição, de alguma maneira, está presente no DNA. Mas fica cada vez mais claro que essa "mensagem" está contida em vários genes, e não em um só.

Mais ainda: como têm mostrado Moffitt e Caspi, não basta nascer com os genes "errados". Pelo menos no caso de sequências de DNA que eles estudam, relacionadas com os neurotransmissores serotonina e MAOA, experiências vividas na infância parecem também ser determinantes para a sanidade do adulto.

A versão (ou "alelo") problemática desses genes já tinha sido associada com comportamentos violentos. Só que alguns portadores não se tornavam agressivos. O casal mostrou, examinando os registros de centenas de pacientes neozelandeses, que a violência se manifesta com muito maior frequência naqueles indivíduos portadores do alelo que também sofreram maus-tratos quando crianças, como espancamentos e abuso sexual.

Em outras palavras, é a interação entre genes e ambiente que os transforma em molestadores e agressores. Não basta um dos fatores para produzir o resultado.

Como é o ambiente (criação) que atua como gatilho, quem quiser evitar a emergência desses comportamentos colherá melhores frutos se agir preventivamente. Por exemplo, impedindo que crianças de famílias vulneráveis sejam abusadas e tenham acesso a boas escolas --um objetivo sempre desejável, independentemente de serem elas portadoras ou não dos genes em questão.

É exatamente a esse tipo de prevenção que se dedicam a alemã Heidemarie Rose e a suíça Erika Dähler Meyer, nas organizações Opstapje e A:primo, em seus respectivos países. Elas abocanharam os US$ 200 mil do outro prêmio Jacobs, de boas práticas.

Merecidamente, também. Elas extraíram a lição correta de pesquisas como as de Moffitt e Caspi: genes e famílias problemáticos não são destinos imutáveis, que condenam as pessoas à infelicidade. Algo pode e deve ser feito a respeito.

Fim

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Redação dissertativa 250: Tema: genética.Tópicos: interação entre genes e ambiente, disposições naturais de uma pessoa, predisposição presente no DNA, sequências de DNA associadas com comportamentos.