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Redação Dissertativa


DISPUTA ENTRE FAZENDA E BC

Fonte: Gazeta do Povo


O fato de o corte de R$ 50 bilhões em despesas no orçamento federal de 2011 ter sido anunciado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pela ministra do Planejamento, Miriam Belchior, pode transmitir a impressão de que a medida é obra do Ministério da Fazenda, como parte de sua missão de bem gerenciar as contas públicas. Nada mais longe da verdade. O ministro Mantega não foi o protagonista da decisão nem de seu timing (o momento certo para agir).

A principal razão para o corte orçamentário é a escalada da inflação, que havia subido em 2010 e bateu 0,83% em janeiro, medida pelo IPCA. Outro aspecto que entrou no tabuleiro da decisão foi a constatação de que o aumento da gastança nos dois últimos anos do governo Lula contribuiu para pôr fogo no aumento de preços. Ocorre que o ministro da Fazenda de Lula no tempo dos gastos exagerados era o mesmo Guido Mantega, portanto, ele foi responsável pela imprudente gestão das contas do Tesouro Nacional no período.

Vários analistas demonstraram preocupação com a tendência altista dos preços, mas Mantega tentou convencer a presidente de que a inflação era resultado da elevação dos preços internacionais das commodities. Assim, as causas estariam fora das fronteiras do Brasil, o que isentava a gestão de Lula da culpa pela elevação dos preços. Talvez a atitude do ministro tenha sido apenas uma forma de livrar a si mesmo da responsabilidade pelos índices inflacionários.

Um novo ator apareceu no cenário e, agindo com firmeza e conhecimento, convenceu a presidente de que o aumento da inflação no Brasil não decorre apenas de elevações dos preços das commodities, mas tem raízes internas, na forma de descompasso entre a oferta e a demanda. Como foi amplamente divulgado, a demanda interna cresceu em função dos gastos excessivos do governo e do aumento do consumo das pessoas incentivado pelas facilidades de comprar a crédito. Esse novo ator é o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, que, além da interpretação sobre o fenômeno inflacionário, convenceu o governo de que os cortes orçamentários teriam de ser anunciados já.

Não foi uma queda de braço qualquer. Foi uma disputa entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central sobre a principal questão econômica para o país: o controle da inflação. Venceu a análise do presidente do BC e venceu sua proposta de anúncio imediato de cortes. A presidente Dilma Rousseff, que tem formação em economia, entendeu a mensagem e optou por não brincar com o dragão da inflação, pois, ao atingir 0,83% em janeiro, vinda de uma tendência altista, a inflação poderia fazer o governo amargar, no seu primeiro ano, a maior taxa de inflação dos últimos tempos.

Se a inflação insistisse em subir, os prejuízos não seriam apenas de natureza econômica, sobretudo o empobrecimento dos mais pobres, majoritariamente eleitores do PT, de Lula e de Dilma. Os prejuízos transbordariam da economia para a política, destruiriam a popularidade do governo e contribuiriam para dificultar a governabilidade. Dilma agiu certo ao não brincar com fogo e o país poderá conseguir brecar a escalada da inflação.

Na luta entre a Fazenda e o BC felizmente venceu o BC, fazendo aumentar a autoridade e o prestígio do presidente da instituição, Alexandre Tombini. Este é visto como um técnico altamente preparado, com doutorado em Economia nos Estados Unidos, e portador de personalidade educada, porém firme em suas posições. Preocupa que o principal responsável por manter as contas públicas em ordem e a inflação sob controle, o ministro da Fazenda, seja tolerante diante da escalada de preços e dos gastos exagerados do governo.

O ministro Mantega gosta de ser identificado entre os chamados “desenvolvimentistas”, eufemismo que pode esconder frouxidão na liberação de despesas e tolerância com elevadas taxas de inflação, males que sempre acabam por solapar as bases do crescimento econômico e provocar crises. Na disputa entre duas autoridades da área econômica não se trata de escolher esse ou aquele nome, mas de entender que o país não pode ficar à mercê de qualquer tolerância ou capitulação diante do dragão da inflação. Nessa linha, foi bom para o país que os argumentos do presidente do BC tenham convencido a presidente, pois o Brasil conhece todo o mal que a inflação provoca, como se viu nas duas décadas de inflação alta e crescimento pífio.

Tombini já havia dado demonstração de que não pretende brincar com a inflação, ao apoiar a elevação da taxa básica de juros na primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) no governo Dilma. No início de março, na sua segunda reunião do ano, o Copom repetiu a dose, e elevou a Selic em mais 0,5%, a qual passa para 11,75% ao ano. O recado do Banco Central ao governo está dado: ou se faz o ajuste fiscal ou a taxa de juros continuará subindo, como a arma que resta para combater a inflação.

Fim

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Redação dissertativa 297: Tema: inflação.Tópicos: combate à inflação, política monetária, orçamento federal, gerenciamento as contas públicas.