Redação em 7 Lições

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Redação Dissertativa


QUANDO A GENTE EXPLODE

Fonte: Folha Online, Luiz Rivoiro


Domingo passado perdi a paciência com o Pedro. E vou logo dizendo que foi ele quem provocou! Explico. Depois de um saboroso e longo café-da-manhã na padoca perto de casa, decidimos aproveitar o clima outonal nem muito frio, nem muito quente para um verdadeiro programa de turista em São Paulo passear a pé pela avenida Paulista. Até aí, tudo bem, todos de acordo. Eis então que a Mãe e eu achamos que a temperatura pedia um reforço na indumentária dos garotos. Pra quê! Foi então que tudo aconteceu.

Com o João foi fácil. Aceitou a primeira sugestão que a Mãe lhe fez. Pegou um moleton preto com delicadas caveirinhas brancas e vermelhas, puxou o capuz pra cima e lá estava ele pronto para sair. Já o Pedro, do alto da sabedoria e senso estético extremamente apurado que seus quatro anos de vida lhe conferem, encasquetou. De cara, rejeitou a primeira opção. E a segunda, e a terceira, a quarta e inclusive a quinta. "Mas não combina com a minha calça!", argumentava de forma veemente. Registre-se que ele estava de calça jeans. Bom, depois de muito argumentar e insistir, a Mãe, desolada, jogou a toalha. Foi nessa hora que vi que teria de entrar em ação. Droga!

Da sala, onde estava, eu já tinha ouvido os gritos. E mais, e mais. Aquilo foi me irritando de verdade, até que cruzei o corredor que me separava do quarto dos garotos decidido a colocar um fim naquele impasse. "Pois bem, Pedro, você tem cinco opções aqui. Vou perguntar se você quer vestir um por um e vou guardar aquele que você não quiser. No fim vai sobrar um e você VAI vestir, ok?" Quando o terceiro casaco foi para dentro do guarda-roupa, ele desatou a chorar. A chorar não, veja bem, a esgoelar! Foi aí que perdi a paciência. Peguei o casaco que achava mais conveniente e tomei o garoto nos meus braços. Enquanto o carregava rumo ao elevador, ele fazia o favor de chorar ainda mais alto e espernear. Determinado, não cedi.

No elevador, o chororô continuou ao mesmo tempo que ele se negava a vestir o maldito casaco. Que, registre-se, combinava perfeitamente com a sua calça jeans e tênis. No nem tão rápido trajeto do décimo andar ao subsolo, não suportei e gritei com ele também. "Mas que coisa Pedro! Ou você coloca a droga desse casaco ou você não vai sair com a gente! Chega de choro! Chega de manha!" Na hora, foi como um vulcão. Olhando agora, vejo claramente que me excedi. Mas não sei, eu estava esgotado, os argumentos todos haviam acabado e ele continuava ali, com aquele choro sem sentido, como que só para nos testar. Foi duro.

No carro, a Mãe o acomodou na cadeirinha. Não abri mais a boca. No trajeto até a Paulista, ele aos poucos foi se acalmando. Quando estacionamos o carro, desci primeiro com o João. Evitava, com uma vergonha imensa, olhar o rosto do meu filho mais novo. Um minuto, dois se passaram e nada de eles nos alcançarem. Até que me viro e lá está ele, envergando o tal casaco, sorrindo como se nada tivesse acontecido. Num instante, tudo se foi. A raiva, a irritação, a vergonha, enfim. Aquela confusão toda parecida de uma hora para a outra ter acontecido há pelo menos uns 150 anos.

Como ainda era de manhã, passeamos pela Paulista com calma. Visitamos o agradável parque Mário Covas, que não conhecia, fomos à feirinha do Trianon, tirei fotos para turistas, os meninos brincaram no parque até que nos refugiamos na livraria mais próxima para uma pausa, promessa que havia feito ao garotos. Logo o Pedro mostrou sinais de cansaço e pediu pra ir para a casa. À princípio, estranhei, visto que ele, assim como o João, adora livrarias. Mas fomos. No caminho, ele dormiu. Quando acordou, quase duas horas depois, estava com febre baixa, que só aumentou até a noite. Durante toda a tarde, ele ficou encolhidinho no sofá, meio murcho, molinho. Olhava para ele e sentia meu coração apertar. Caramba, e eu havia brigado com ele! E agora ele estava ali, derrubado pela febre. Preocupada, a Mãe decidiu dormir junto aos meninos. À noite, no meu quarto, nunca me senti tão sozinho.

Fim

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Redação dissertativa 49: Tema: emoção.Tópicos: redação dissertativa pronta, autocontrole, controle e descontrole emocional, raiva, irritação, vergonha, paciência.