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VIOLÊNCIA E PAISAGEM

Redação dissertativa pronta sobre: violência, haitiano, crime de ódio, haitianos, humilhação contra haitiano, xenofobia, manifestações de ódio, racismo, linchamentos, justiça com as próprias mãos.

Renald Joseph é haitiano e foi espancado por três homens em Lajeado, ano passado, em crime de ódio. Amos Marcelin, seu compatriota, passou pela mesma experiência, em Três Lagoas (MS), espancado por oito pessoas. Em Curitiba, outro haitiano, Maurice, foi surrado dentro da empresa onde trabalhava após pedir que seus colegas parassem de lhe chamar de “escravo” e “macaco”. Ele dizia: “você é meu irmão, sou humano igual a você, criado pelo mesmo Deus”. Os operários, então, lhe atiravam bananas. Somente em Curitiba, há outros 13 casos de haitianos espancados dentro das empresas em que trabalhavam. Em Porto Alegre, caso de humilhação contra haitiano em um posto de gasolina circulou pelas redes sociais em vídeo feito pelo agressor, o que gerou interessante matéria do programa CQC. O sujeito que humilhou o frentista haitiano acredita que eles são trazidos ao Brasil pelos “comunistas”. Os casos se sucedem em manifestações de ódio contra estrangeiros negros e pobres.

A esquina onde xenofobia e racismo se encontram precisa ser visitada pelas polícias e pelo Ministério Público para que os agressores sejam identificados e responsabilizados antes que seus gestos inspirem ondas de maldade. Vale o mesmo para os linchamentos que seguem ocorrendo no Brasil sem que se tenha notícia de identificação dos assassinos. “Odiadores” no Brasil não costumam ser punidos, porque parte influente da sociedade não se incomoda com eles. Percebe-se isso claramente pela forma como alguns agentes públicos e formadores de opinião abordam o tema. Em regra, repetem pérolas como “os linchamentos ocorrem porque as pessoas não confiam mais nas instituições”. Logo depois assinalam protocolarmente que “lamentam” e que não estão de acordo, claro. A razão pela qual a ampla maioria dos que não confiam nas instituições jamais linchará um suspeito é fato que não produz sequer alguns segundos de reflexão. Este é o caminho pelo qual a covardia vira paisagem e se reveste de “aura” justiceira. Só por isso, a expressão “justiça com as próprias mãos” segue sendo usada no Brasil sem que se perceba que ela revela uma contradição performativa. A “justiça com as próprias mãos”, afinal, é materialização da pior injustiça, dissolvida em slogan com o qual assassinos de ocasião legitimam seu desapego à civilização.

Agressões xenófobas, racismo e linchamentos não são o mesmo que palavras violentas, mas não seriam fenômenos sociais sem o amparo de um discurso maléfico que os descreve como expressões da humanidade ao invés de evidência de sua negação.


Créditos: http://wp.clicrbs.com.br, Marcos Rolim