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MUDANÇA DE HÁBITO

Redação dissertativa pronta sobre: mudança de hábito, tabagismo, fumantes, cigarro, combate ao tabaco, fumo, nicotina, dependente do cigarro, vício de fumar, fumódromos, escolhas.

Sempre vivi em ambientes de muitos fumantes. Grande parte dos meus amigos fumam. Alguns de forma abusada, atrevida, são capazes de consumir até 2 carteiras de cigarro por dia. Nem por isso costumo recorrer a discursos antitabagista. Fiquei com aquela frase na cabeça de que “o único direito do não fumante é não fumar”. Faço hoje no Dia Mundial de Combate ao Tabaco uma exceção e digo assim sem graça nenhuma aos fumantes que saiam dessa. Vício todos nós temos. São as bengalas que a gente pega por aí para ajudar a enfrentar a vida. Mas convenhamos que jogar fumaça para dentro do corpo é no mínimo sem lógica.

Achava incrível o poder de persuasão da indústria do fumo, isto sem falar em intimidação e lobby fortíssimos. Quem não se lembra das propagandas sedutoras de antigamente que conquistavam fumantes a perder de vista. No cinema, a baforada de um ator ou atriz era quase um orgasmo - guardadas as devidas proporções - para quem curtia o ídolo. Houve época em que fumar era considerado um charme. Para as mulheres, chegou a significar ato de rebeldia e de protesto por direitos iguais aos dos homens.

Hoje nem tudo são flores para a indústria do tabaco. O principal baque sofrido veio com a restrição de se fumar em locais fechados, lei aprovada em 2011 e colocada em prática após regulamentação em 2014. Proibir o cigarro em determinados ambientes irritou profundamente os fumantes, que reagiram fumando muito mais. O efeito psicológico da proibição pode acabar estimulando o hábito, ainda que sejam públicas as estatísticas apontando que o cigarro rouba em média 12 anos da vida de um homem e 11 anos de uma mulher.

Creio que além desse impacto psicológico, o veto ao tabaco constrange o fumante. Ser obrigado a se levantar de um lugar para acender um cigarro, expõe quem fuma num primeiro momento. Depois, pelo menos é o que dizem os médicos, o veto ajuda ao fumante superar crises de abstinência da nicotina, substância que provoca a dependência. Se a conversa estiver boa em roda de amigos, é provável que o cigarro seja ignorado por mais um tempo.

E advinha o que anda fazendo a poderosa indústria do tabaco, a partir desta constatação? Atacando sutilmente a fragilidade dos viciados. Se as restrições legais levam o fumante a romper os primeiros instantes da abstinência, é sinal que ele pode vencer o vício. Para a indústria, é um duro golpe o dependente passar horas sem dar uma tragada. No contra-ataque, os fabricantes vêm investindo em fumódromos sensacionais. Isso mesmo. Nada de cantinhos feios, escuros e sujos. Fumódromos da moda são aclimatizados, têm muito verde, cadeiras confortáveis e cores atraentes. Tudo para convencer o fumante a continuar fumando.

Enquanto trata de cuidar dos fumódromos, a indústria do tabaco aposta em multiplicar a indignação dos dependentes do cigarro contra as ações restritivas. O mote é que a proibição tem ranço de autoritarismo, um atentado à liberdade e aos direitos individuais que todos temos de consumir um produto lícito. Pior que procede. Mas não sejamos inocentes. A indústria vem se organizando e gastando verdadeiras fortunas com marqueteiros, advogados e lobistas para não sofrer mais baixas no mercado cativo de dependentes de nicotina.

Agora o que mais me sensibiliza ao discurso antifumo neste domingo vem da Organização Mundial da Saúde (OMS) que garante ser o tabagismo uma doença pediátrica, já que 90% dos fumantes regulares dão as primeiras baforadas entre os 10 e 18 anos. E se o cigarro é mesmo este monstrengo que autoridades médicas afirmam, vamos começar por nossos pequenos.

O que a gente pode oferecer às nossas crianças senão bem-estar físico e emocional? Não somos nós mesmos a ficar lamentando que nossos filhos seriam de uma geração dedicada a prazeres imediatos, medíocres até. Não vou recorrer à expressão felicidade porque soa a ilusão mercadológica, a comercial de margarina vegetal. Entretanto, jamais será perda de tempo mostrar a eles quanta coisa boa a vida oferece e que vale a pena buscar. As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo, é verdade. Mas o que nos cabe, pais e mães, não é justamente a missão de destacar valores. Tornar cada uma dessas escolhas algo interessante.


Créditos: http://www.gazetadigital.com.br, Margareth Botelho