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SOCIEDADE DO DESEMPENHO

Redação dissertativa pronta sobre: sociedade, doenças neuronais, violência, sociedade disciplinar, desempenho, sociedade do desempenho, hiperatividade, Síndrome de Burnout.

Hoje vou escrever sobre dois temas. Primeiro quero compartilhar com os leitores a descoberta de um livro. “Sociedade do cansaço” (Ed. Vozes) , do sul coreano Byung-Chul Han, é uma publicação pequena, tem 78 páginas, de leitura relativamente fácil, o que, por si só, já é um tremendo diferencial. Sai do modelo calhamaço que tem sido quase norma entre os ensaios, e reflete profundamente sobre aspectos sensíveis da atualidade com palavras enxutas e muitas citações. Ideal para tempos em que a quantidade que se tem de coisas para ler, responder, guardar e refletir já nos deixa como protagonistas dessa sociedade que o autor descreve.

Chul Han começa falando de enfermidades e lembra que estamos vivendo uma era de doenças neuronais, diferentemente do século passado, que ele diagnostica como uma era viral. Transtorno de Personalidade Limítrofe, hiperatividade, Síndrome de Burnout são algumas das doenças elencadas para sustentar sua tese. Embora ainda haja muitas epidemias por vírus, não é mais esse medo que nos cerca. Tememos muito mais o “não dar conta”.

Há que se observar também, na perspectiva do autor, uma tremenda violência provocada pelo que ele chama de “totalitarismo do igual”. Citando o sociólogo francês Jean Baudrillard, o professor coreano escreve sobre como pode ser aniquilante e hostil o senso comum, a massificação.

“A violência neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema... A Síndrome de Burnout é uma queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual. O hiper da hiperatividade ... representa apenas uma massificação do positivo”, escreve Chul Han.

Não vivemos mais numa sociedade disciplinar, como diagnosticara o filósofo e crítico francês Michel Foucault nos anos 70, afirma o autor de “Sociedade do cansaço”. Mas o sujeito que vive hoje sob a necessidade de obter um alto desempenho, continua disciplinado.

“A sociedade de hoje é uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. A sociedade do século XXI é uma sociedade de desempenho”, diz Chul Han.

É preciso ter projetos, iniciativas, muita motivação, maximizar a produção, sempre. E quando não se consegue atingir as metas, muitas vezes autoimpostas, vem a sensação de fracasso, de estar sempre muito cansado. Citando outro sociólogo francês, Alain Ehrenberg, Chul Han fala sobre o sujeito depressivo, que nem sempre está no limite de suas forças, mas sim “esgotado pelo esforço de ter de ser ele mesmo”.

No capítulo em que fala sobre o trabalho, o coreano traz um dos livros mais importantes da pensadora Hannah Arendt, “A condição humana” (Ed. Forense Universitária), para lembrar que, diferentemente do homem descrito por ela, o “animal laborans” pós-moderno se individualizou. E pode ser qualquer coisa, menos o ser passivo denunciado pela alemã, vítima de uma espécie de prisão que o massifica e torna escravo. Na sociedade do desempenho, ao contrário, todas as atividades humanas decaem para o nível do trabalho e o homem se torna “hiperativo e hiperneurótico”. Quem não está nessa energia é excluído. Nessa categoria entram, por exemplo, os imigrantes, que hoje são menos uma ameaça viral (por poder trazer doenças) e mais um peso porque são vistos como potenciais competidores na hora de encontrar trabalho. “O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando”, denuncia Chul Han, deixando margem para muitas reflexões. Recomendo a leitura.


Créditos: http://g1.globo.com, Amelia Gonzalez