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MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Redação dissertativa pronta sobre: mudanças climáticas, aquecimento global, clima, efeito estufa, reciclagem de lixo, coleta seletiva, gases poluentes.

“Mudanças climáticas são o fenômeno que nos obriga a sair de casa com um casaco na bolsa porque o tempo muda a toda hora”.

“Aquecimento global tem a ver com o furo na camada de ozônio”.

“Se os cidadãos comuns reciclarem o lixo, plantarem árvores e usarem filtros para gases poluentes nas descargas de seus automóveis, vamos acabar com o problema. Mas, como isso não vai acontecer, não se sabe nem se haverá mundo, planeta, daqui a 50 anos”.

Quando entrevistaram 25 cidadãos brasileiros comuns e 12 especialistas da área sobre sua percepção a respeito das mudanças climáticas, os pesquisadores do Instituto Frameworks ouviram essas e outras teorias. O resultado da pesquisa, encomendada pelo Instituto Arapyaú e pela ONG Observatório do Clima, não poderia ser mais instigante para quem trabalha com a arte de comunicar ao público teses científicas. É difícil. E, se formos fazer uma avaliação pela maioria dos resultados, na questão de mudanças climáticas nós, os comunicadores, não estamos sendo bem sucedidos.

Mas também há espaço para refletir e relativizar um pouco esse estudo. Afinal, como lembrou o professor e doutor em ciências políticas Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, que estava na plateia do auditório da Fundação Getúlio Vargas, onde aconteceu o evento, a sociedade brasileira é grande e diversa demais e, atualmente por exemplo, está “tomada pelo curto prazo, da profunda crise econômica, política, moral, de valores. Isso pesa de uma forma gigantesca, sobretudo em relação à imprevisibilidade do futuro próximo”.

“Os fatores que influenciam pela compreensão maior das mudanças climáticas têm uma parte universal e tem outras que são particulares, diferenciadas pelas sociedade e por níveis educacionais. O problema, aqui, é falar em ‘público em geral’ e não diferenciar estratos educacionais. Isso, para sociedades altamente heterogêneas como a do Brasil, é grave. Mudança climática é um problema de longo prazo, por isso há uma resistência a uma compreensão mais profunda”, disse ele.

Ouvida e registrada a voz dissonante, importante para enriquecer qualquer reflexão, vamos às observações sobre o estudo feitas pela antropóloga Paula Siqueira, do Frameworks, para a plateia formada, em grande parte, por jornalistas. Ou seja, alguns dos maiores responsáveis para repassar ao público as informações sobre mudanças climáticas e aquecimento global. Os dados foram editados sob a forma de modelos, comparando as respostas dos cidadãos comuns com as dos especialistas. Respostas que estão alinhadas com a teoria de quem entende do assunto, respostas que não estão...

Para começar, o público ouvido pelos especialistas acha que o Brasil é um país que não está sujeito a vulnerabilidades climáticas intensas. E os cientistas ouvidos, é claro, acham que formar esta consciência seria crucial para que os cidadãos possam, de fato, exigir do poder público um plano eficaz de adaptação às mudanças. É, de fato, preocupante perceber que as secas, os tornados, as enchentes e alternâncias de temperatura atípicas, que já estão acontecendo no Brasil com frequência (vide a seca no Sudeste, por exemplo, alvo de tantas notícias), não são percebidas como resultado das mudanças climáticas.

Uma recomendação feita aos jornalistas pelos profissionais que divulgaram a pesquisa foi para que se associe sempre, nas notícias, as mudanças climáticas ao aquecimento global, reforçando o que cada um significa. Isso porque foi comum, nas respostas, logo após a menção ao aquecimento global, as mudanças climáticas serem associadas à amplitude térmica diária – “Quando o tempo está frio de manhã e esquenta à tarde”. O problema dessa percepção é que às vezes o frio intenso também é resultado de uma troca radical do clima.

A boa notícia é que as pessoas entrevistadas não negam que algo esteja acontecendo com o clima e estão certas de que essa mudança é de inteira responsabilidade das ações humanas. Lá nos Estados Unidos, a situação é bem diferente, comentaram os pesquisadores.

Mas, para os especialistas entrevistados para o estudo, o vilão maior das mudanças climáticas é o setor de energia, o que leva à necessidade de priorizar a reestruturação da produção e consumo energéticos. Para o público em geral, porém, há uma percepção mais ampla, de que o efeito estufa pode ser resolvido com reciclagem de lixo, coleta seletiva, reflorestamento, uso de filtros para gases poluentes nos automóveis, ações que não atingem a dependência dos combustíveis fósseis, considerados pelos especialistas como o grande inimigo.

Ficou claro o desejo de o estudo acentuar a necessidade de que os cidadãos cobrem dos governantes políticas públicas endereçadas ao consumo dos combustíveis fósseis, ao setor energético. Mas a maioria dos cidadãos comuns não entende bem o que seja combustíveis fósseis, segundo a antropóloga Paula Siqueira.

Alguém da plateia sentiu falta – e eu também – de que o estudo apresentasse a parte que cabe ao setor privado nesse imbróglio do clima em que estamos. O terceiro setor mais responsável pelas emissões de carbono no Brasil, segundo estudo lançado pela Observatório do Clima no início da semana (leia aqui) é a agropecuária. Não apareceu a relação entre este setor e as mudanças climáticas no estudo apresentado.

A questão do catastrofismo também foi levantada. Os cidadãos comuns entrevistados estão com medo dos próximos 50 anos, alguns são fatalistas, outros são pessimistas. É um dado bem paradoxal com as respostas que não fazem ligação entre os desastres ambientais e as mudanças climáticas. Teriam medo de quê?

Sugestão para os jornalistas fugirem ao catastrofismo dada pelos especialistas do instituto: estruturar as notícias sobre mudanças climáticas junto com soluções. Mas eu pergunto: se há tantas soluções assim disponíveis para serem relatadas, por que estamos lidando ainda com os problemas derivados das questões do clima?

As doenças respiratórias apareceram, na fala dos entrevistados, como consequência do clima. Mas os pesquisadores gostariam que outras doenças, como as epidemias pós-enchentes, também aparecessem.

“O Brasil precisa avaliar suas vulnerabilidades de modo a ficar preparado para as mudanças que não teremos como evitar. O setor de saúde é chave para aumentar a nossa resiliência, termo que o publico não entende”, avaliou a antropóloga Paula Siqueira.

As metáforas poderão servir para ajudar a comunicar o problema, segundo Michael Baran. Exemplo é como eles estão explicando, nos Zoológicos e parques norte-americanos, o efeito estufa: “é como um cobertor que está cobrindo a Terra”. Já os oceanos ganham a alcunha de “coração do clima”, o que serve para explicar como eles estão aquecendo, mesmo que a temperatura ambiente esteja baixa.

O intuito é informar de maneira mais clara, e eu compartilho desse desejo. Mas, de novo, acho importante que a singularidade e o tempo de cada sociedade, como bem colocou o professor Viola, seja levada em conta.

Ao final da apresentação, jornalistas e representantes de ONGs ativistas estiveram no palco para responder a algumas questões da plateia. Foi quando apareceu mais um ingrediente para ampliar a reflexão: estamos vivendo numa era onde as próprias pessoas são, na maioria das vezes, mensageiras das notícias. Portanto, a tarefa é ainda maior, de municiar com informações corretas esses arautos.

“Não temos que ficar falando sobre o mundo novo. O mundo novo a gente faz”, disse a representante do Greenpeace.

É para essa sociedade, do desempenho, que as informações precisam ser espraiadas. Perguntei se os pesquisadores perceberam algo que considero extremamente importante em toda a discussão: até que ponto o público entrevistado mostrou real interesse pelo tema? Sim e não, me responderam. “Há a preocupação com o clima, mas isso quer dizer uma série de coisas, até as mais disparatadas”.

Talvez a sensação seja de que essa questão pode ficar para amanhã.


Créditos: http://g1.globo.com, Amelia Gonzalez